Quando os tempos são de disrupção e o mundo entra na era de ouro da inovação tecnológica, estimular o talento humano torna-se crítico, porque o poder da evolução vem das pessoas.

O desenvolvimento e evolução resulta da resposta a um conjunto de vetores, que operam em conjunto e se influenciam de formas diversas, dando dessa forma origem a realidades, às quais, num determinado ponto no passado se chamaria cenários. 

Esses vetores são divididos entre aqueles que, são já perceptíveis, porque visíveis e baseados em informação já demonstrada e avaliada, são os que chamamos de tendências macro e as suas desmultiplicações, temos os movimentos, que se desenvolvem de uma forma inicialmente ténue ou insignificante mas que podem tomar proporções de escala e finalmente temos os eventos de características impactantes que acontecem num padrão aleatório.

Caso de exemplo dos primeiros será a tendência macro de Globalização, que poderá ter como desmultiplicações, a mudança de produção para países Asiáticos e a mudança nos modelos de transporte de mercadorias, outro exemplo poderá ser a tendência macro para Novos Padrões de Mobilidade, que implica desenvolvimento de novas infraestruturas de transportes, mudanças nas tipologias dos veículos e novos conceitos tecnológicos associados.

Em relação a movimentos podemos por exemplo começar a identificar um desconforto social associado a um tema, que reune inicialmente apenas um grupo, ideia ou convicção mas que de forma gradual se torna actuante e as suas consequências multiplicam-se, conduzindo a mudanças de comportamento e ao desenvolvimento de novas realidades económicas e sociais. Um movimento em que identificamos isso facilmente é o que ficou conhecido como MeToo.

Já os eventos de relevância ou impacto aleatórios são, pelas suas características, surpreendentes e caprichosamente difíceis de prever, dimensionar e condicionar. A pandemia que o mundo enfrenta neste momento é disso um exemplo mas outros, como descobertas científicas inesperadas ou cataclismos naturais têm efeitos globais, regionais ou sectoriais significativos.

Os processos de definição de estratégia das organizações são habitualmente centrados no primeiro vetor e são baseados em modelos de avaliação de informação, acerca conjugação entre as tendências macro e suas desmultiplicações, por forma a identificar cenários possíveis e formular respostas adequadas para os cenários mais prováveis de acordo com a sua interpretação das probabilidades.

Muito pouco tempo e recursos são utilizados a fazer levantamento de informação acerca dos movimentos diversos que, em todo tempo ocorrem, e muitas vezes, sendo contracorrente com as tendências, são desvalorizados. Por exemplo o conceito de teletrabalho, sendo uma temática à muito discutida estava fortemente ligada a profissões e atividades segmentadas e os canais em que essa temática era discutida e as ferramentas, soluções e produtos estavam confinados a esses canais. Com o grande catalisador da pandemia, mas tal pode acontecer de forma viral sem um catalisador, o conceito de teletrabalho foi alargado para fora da segmentação original, expondo ao movimento um universo de novas profissões e atividades, de forma exponencial com uma curva de ação muito rápida até para os agentes do sector. 

Se gastamos pouco tempo a avaliar de forma mais ampla os movimentos que se desenvolvem nos diversos canais de intervenção humana, temos ainda menos, no mundo empresarial e institucional, uma real atenção e indexação de recursos para considerar e avaliar eventos aleatórios de diversas dimensões que podem impactar de forma devastadora a nossa realidade, quer económica, quer social e isso de forma localizada, geograficamente ou setorialmente, mas também transformando aquilo que somos e o podemos ser no futuro.

Isso deve-se principalmente ao caráter de imprevisibilidade que estes factores têm e o facto de os modelos analiticos usados no desenvolvimento de cenários para as realidades prováveis, que serão consequência da evolução no primeiro vetor, serem muito menos úteis no processo de levantamento de informação e avaliação de correntes de comportamento e iniciativas que se podem tornar movimentos transformistas. Ainda menos no processo de olhar para a história e experiência humana e dela aprender que a incerteza e os eventos aleatórios sempre estiveram nela presentes e para eles devemos estar motivados a olhar, com o sentido de, não talvez de estar preparados, o que seria perfeito, porque tal dificilmente será possível, pelo menos, identificar consequências e descobrir respostas para minimizar o impacto negativo destas.

É aqui que os conceitos começam a inverter-se e a confiança nos modelos analiticos, começa ser direcionada para factores como a visão, experiência, sensibilidade e intuição, características ou skills que costumavam ser apontadas como determinantes na caracterização dos líderes.

As organizações e instituições são, com demasiada frequência apanhadas em situação de fragilidade ou completamente de surpresa por causas várias por, crises de diversa ordem, transformações que afinal eram previsíveis e eventos cataclísmicos que pensávamos que nunca iam acontecer, pelo menos a nós!

Será talvez tempo de investir tempo e recursos em outras direções, devemos pensar no que temos mais a perder, no que nos faz mais felizes e realizados enquanto seres humanos, para podermos concentrar o nosso foco mais no bem estar e saúde de todos. 

É tempo de olhar de forma diferente para a prosperidade.


Carlos Mendes

Business Strategist and Entrepreneurship Mentor, Advisor and Investor